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12 de fevereiro de 2016

O mascote do FreeBSD é um Demônio?

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Escrito por: Leonardo Souza
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Mascote do FreeBSD

O mascote do FreeBSD é o pequeno e simpático Beastie, um ser vermelho com chifres e rabo. Por ter uma aparência semelhante ao que nós ocidentais entendemos como demônio, ele é até hoje visto com certo receio, principalmente pelos mais religiosos. Existem alguns até que acreditam que os criadores do FreeBSD possuíam um vínculo com satanismo e “forças ocultas”. Mas porque o mascote do FreeBSD é um demônio? Existe alguma mensagem subliminar nisso? São os usuários do FreeBSD adoradores do diabo? O que dizem os desenvolvedores?




Definição oficial

Segundo a página oficial do projeto, o Beastie é uma representação dos daemons que “rodam” no FreeBSD, ou seja, o mascote FreeBSD é uma representação destes programas. No contexto do mundo Unix, e o FreeBSD possui origem no Unix, daemons são processos que permanecem em execução em modo background, ou seja, segundo plano, administrando tarefas sem a intervenção humana. Em outras palavras ele funciona como um processo que auxilia o sistema operacional ao gerenciar outros processos, e isso sem que haja a necessidade do administrador do sistema interferir diretamente.

Mascote do FreeBSD

Neste contexto, podemos dizer que o daemon no mundo Unix é um ajudador do sistema, executando sem que ninguém o veja, mas contribuindo para o bom funcionamento do sistema e evitando que o usuário precise intervir em tarefas específicas. Isso significa que o usuário não precisa ficar monitorando determinadas tarefas, identificando sua execução, status ou programação de forma manual, pois o daemon deste processo verifica isso automaticamente. No nosso mundo, usuários do FreeBSD, o nosso daemon possui um nome: Beastie.

Porém a dúvida permanece: qual a relação entre um processo que automatiza a administração de outros processos com um mascote que possui a imagem de um demônio? E porque se chamam “daemons”, termo que remete a demônios?

Origem de tudo

Embora hoje nós sempre associemos o termo “daemon”, demônio, a um ser negativo que pratica o mal e possui apenas desejos satânicos (seja lá o que isso signifique), sabemos que o termo é interpretado de forma equivocada. Na verdade este termo possui origens muito mais antigas, que remontam a mitologia grega, onde os daemons eram seres sem qualquer inclinação particular ao bem ou para o mal, e que possuíam a finalidade de servir os seres humanos, algo muito parecido ao conceito moderno de anjo da guarda.

daemonEstes seres possuíam, na mitologia, várias formas sendo representadas em muitos casos como crianças, mulheres e homens. Porém a forma que mais representa um daemon é, sem dúvidas, um ser com chifres (em alguns casos mais de dois) e rabos (em alguns casos mais de um). Outro ponto importa é que eles não eram adorados, ou seja, não eram considerados deuses, apenas ajudadores da raça humana que não necessariamente cumpriam ordens destes deuses. Em alguns casos estes daemons escolhiam pessoas específicas para servirem e protegê-las.

Famosos que possuíam Daemons

O próprio filósofo Sócrates dizia possuir um relacionamento ativo com seu daemon, inclusive ouvindo com frequência sua voz,  que lhe transmitia ensinamentos, porém sem interferir no seu livre arbítrio. Era comum, inclusive, que grandes guerreiros afirmassem ser protegidos por daemons, causando um certo temor nos inimigos supersticiosos.

Segundo ainda a mitologia grega, estes seres eram muito semelhante aos gênios da mitologia árabe, como o da lenda de Aladim e em alguns casos eram associados a felicidade, por isso a palavra grega que designa felicidade é “eudaimonia”. Ser feliz para os gregos é viver sob a influência de um bom daemon

A verdade é que independente da época ou lugar sempre existiu pessoas que alegaram receber proteção e/ou conhecimento de seres sobrenaturais, chame você do que quiser chamar: anjos da guarda, espíritos, guias ou orixás ou até extraterrestres, por exemplo, como é o caso do grande inventor nos campos da engenharia mecânica e eletrotécnica,  Nicola Tesla.

Questões filosóficas à parte, podemos concluir que as referências mitológicas e até históricas que fazem referencia aos daemons, não são nem de longe malignas. Por outro lado sabemos que a imagem que temos de um ser maligno, como o diabo por exemplo, com chifres e rabo, é algo bem recente na história do homem, em algumas religiões, por exemplo, estes seres são até hoje representados por seres belos e atraentes.

Diante disso surge a seguinte dúvida: se eles eram representados por muitas vezes em forma de humanos, porque os daemons são representados mais frequentemente por um ser que possui chifres e rabo? Para responder esta pergunta vamos analisar o real significado de chifres e rabo.

Porque os chifres e o rabo?

Embora os daemons sejam representados, algumas vezes, como pessoas, na maioria das vezes sua representação acontece por meio de criaturas de diversas formas. Porém a pergunta ainda não foi respondida: porque um ser com chifres e rabo?

Chifres

Embora hoje em dia os chifres sejam o tipo de acessório que ninguém quer “ostentar”, ele já foi motivo de orgulho de muitos. Desde a antiguidade este era um simbolo de poder. Tanto é verdade que um dos nomes mais comuns durante o império romano era Cornélio que significa basicamente “duro como chifre”. A bíblia, no livro de “Atos dos apóstolos”, cita que uma das pessoas mais importantes da época chamava-se exatamente “Cornélio” (Atos 10:1). Em outras palavras ter um nome referenciando chifres era motivo de orgulho.

Ainda na bíblia sagrada, por exemplo, o próprio Jesus é representado como um cordeiro que “tinha sete chifres” (Apocalipse 5:6). Isso sem falar nos “chifres de Moisés”, mas esta já é uma outra história. O que isso tudo significa é que na antiguidade quando alguém queria representar um ser poderoso, este teria com certeza chifres.

Por este motivo, também, civilizações antigas representavam seus deuses como tendo chifres ou em forma de animais que possuíam estes chifres. Alguns destes povos, inclusive, ostentavam na cabeça de seus reis, chifres de animais ao invés de coroas.

Outro “acessório” muito utilizado para representar seres poderosos era o rabo (calda).

Rabos

O rabo possui, desde a antiguidade, um significado de resistência. Segundo Dionísio da Silva, professor de Letras da Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, os egípcios possuíam a prática de cortar a cauda (rabo) dos cavalos inimigos logo após a vitória nas batalhas. Dessa forma, participar de uma batalha e permanecer com o rabo significava que o cavalo em questão fazia parte do exercito vencedor.

Na mesma linha de pensamento o famoso pesquisador e folclorista potiguar Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), conta em seu livro “Locuções tradicionais no Brasil”, que foi através desta prática existente a “mais de três mil anos” que surgiu a expressão “arranca rabo”, que significa basicamente briga, confusão, escândalo. Em outras palavras acontecia um “arranca rabo” e o vencedor é que permaneceria com o rabo intacto no fim dela.

Sendo assim, é de se entender que as antigas civilizações retratassem os seres vencedores como possuindo caldas, estes eram os que mesmo enfrentando diversas batalhas mantinham, ainda assim, suas caldas sem qualquer dano.

Logo concluímos que tanto os chifres como a calda eram utilizados para representar serres poderosos e vencedores. Sendo assim, fica fácil entender porque os antigos daemons foram/são representados com mais frequência como tendo os tais chifres e o famigerado rabo. Por este motivo também que o projeto FreeBSD representa este daemon como tendo estas características.

Os daemons e o lema do FreeBSD

O lema do FreeBSD é “The power to Server”, ou seja, o poder de servir. Porém ao contrário do que muitos acreditam, o sistema não possui este lema por ser desenvolvido para servidores, na verdade este lema está diretamente relacionado ao Bestie. Afinal a definição de um mascote que lembra um daemon possui total influencia sobre o lema do sistema. Nada mais coerente num sistema que possui um daemon como simbolo/mascote do que ter um lema que referencie a característica de servir.

Isso significa que embora a maioria das pessoas acredite que o lema é usado porque o sistema possui características de servidor (servidor de redes), ele na verdade é usado justamente para lembrar os daemos que “rodam” no sistema como um auxiliar do sistema. Ou seja, tanto o mascote quanto o lema do sistema faz a referência as expressões “poder” e ”servir”.

Lembramos que os daemons não são exclusivos do FreeBSD, na verdade qualquer sistema operacional faz uso deles, sejam baseados ou não no Unix, inclusive o famoso sistema da Microsoft, que os chamam de “serviços”. Porém o FreeBSD é um dos poucos que utiliza como mascote um daemon e o representa desta forma.

Conclusão

Diante de tudo que foi explicado, concluímos que não há qualquer interesse do projeto FreeBSD em associar o sistema com o diabo ou qualquer outra figura maligna. Ou seja, mascote do FreeBSD, nosso Beastie, não é o diabo, e sim uma representação de um daemon, ser mitológico conhecido por ajudar e servir os seres humanos e em alguns casos traduzidos como “divindade” ou “espírito”.

O que ocorreu é que no momento da definição do mascote do FreeBSD, que iria representar o sistema , suposição minha, decidiram por escolher um que definia melhor a imagem de um daemon, por isso os chifres e a calda, porém com um aspecto bem simpático, como é o caso do nosso Beastie. Repito que isso é apenas uma suposição minha.

Sendo assim, viva o mascote FreeBSD, o nosso querido beastie!






Sobre o Autor

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Leonardo Souza
Bacharel em Informática, pós graduado em Segurança de Redes de Computadores e analista de Segurança da Informação. Entusiasta de Segurança da Informação e usuário FreeBSD, porém sem xiismo.




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